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"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"
(Douglas Adams, 1952-2001)

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sexta-feira, 24 de maio de 2013

A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO CIENTÍFICO: O OBSERVADOR E O OBSERVADO


Por P.G. Pinheiro II

A física quântica[1] colocou em xeque o papel do observador na ciência contemporânea[2]. Antes o pesquisador (observador) era considerado independente da sua pesquisa (coisa observada). Detalhe que muitos ainda cultivam esta ideia, pois a ciência ocidental se consolidou baseada no pensamento cartesiano[3].

Dentre o escopo da física quântica, o Princípio da Incerteza, proposto pelo físico Werner Heisenberg, teve um grande impacto sobre a maneira de fazer ciência. Por este princípio ficou-se sabendo que grandezas físicas de outrora não eram facilmente determinadas; por exemplo, posição e velocidade de um corpo não são determinadas com exatidão, pois ao se medir um, o outro é automaticamente afetado de maneira que a sua determinação exata fica imprecisa.

Este é somente um exemplo de como os pesquisadores tiveram que reformular suas explicações da realidade a partir dos trabalhos envolvendo o mundo subatômico. Neste ponto, se você for questionador, irá rebater esta exposição com algo parecido com a afirmação: “ah, mas isso só ocorre porque estamos falando de átomos, coisas muito pequenas...”. Não esqueçamos que a ecologia[4] – a qual não é determinista, apesar de muitos ecólogos teimarem nessa linha de pensamento – nos ensina muito bem: dependendo da escala as explicações para um mesmo fenômeno pode ser diferente. O próprio Heisenberg disse: “toda palavra e todo conceito, por mais claros que possam parecer, têm apenas uma limitada gama de aplicabilidade”[5].

No mundo quântico, “coisas” sozinhas não fazem sentido. São as interconexões de determinam com o todo e a parte será (é a própria ecologia!). Portanto, se o observador faz parte do todo, ele não pode ser tratado como a parte e sim como construtor altamente correlacionado com o que é observado. Então, se o resultado de uma pesquisa é “vendido” como independente de quem realizou, duvide-o!

O Cientista (pesquisador ou observador) não está isolado de seu trabalho, pois os seus resultados são frutos de interconexões que não estão isoladas do seu ser e, consequentemente, de sua mente (totalidade parcial heideggeriana[6]). O produto do trabalho científico é, antes tudo, produto de conceitos, pensamento e valores do pesquisador[7] (o mal é para quem é bom, no entanto, o que é o mal para quem é mal?).

Se a ciência consiste busca pela verdade, então, porque acreditar em uma verdade quando, por definição, está sempre estará sendo procurada. Afinal, “se a ciência é a busca pela verdade, por que não divulgarmos a maneira pela qual ela é feita?”[8].




[1] Ramo da física (surgida nas primeiras décadas do século XX após os trabalhos de Max Planck, Albert Einstein, Neils Bohr, Loius de Broglie, Werner Heisenberg, Erwin Schröndinger, Wolfgang Pauli e Paul Dirac) que trata das explicações da natureza do mundo subatômico.
[2] FRITJOT CAPRA. 1982. Ponto de Mutação. Editora Cultrix.
[3] Referente à filosofia proposta pelo francês René Descartes (), onde a coisa material (físico, corpo,...) está separado da coisa espiritual (mente, alma, ...). O principal trabalho deste filósofo e alicerce do pensamento científico é “O Discurso do Método”.
[4] Área das Ciências Biológicas que estuda como são determinados padrões de distribuição e abundância resultante das relações dos seres vivos entre si e/ou das relações destes com o ambiente.
[5] Transcrito como em: FRITJOT CAPRA. 1977. O Tao da Física. Editora Cultrix.
[6] Relativo ao filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). A totalidade parcial é aquela alcançada pelo Ser dentro da conjuntura atual, pois para se alcançar a totalidade em todo seu sentido deveria-se rejeitar a metafísica tradicional, o tecnicismo, a banalização e o anonimato (elementos presentes na cultura contemporânea).
[7] FRITJOT CAPRA. 1982. Ponto de Mutação. Editora Cultrix.
[8] DAVID RUELLE. 1991. Acaso e o Caos. Editora UNESP.

Um comentário:

  1. Luiz Mário de Melo e Silva27 de maio de 2013 11:09

    "O mais poderoso dos seres é o indivíduo e sua mente, pois ele, de frente e confrontando a si mesmo, é capaz de atingir qualquer realidade que desejar. Construí-la, para ser exato! Foi assim que construiu a idéia de deus, a mais potente das armas nucleares, a arte, enfim, a si mesmo ao olhar para o infinito do espaço e perceber a imensidão da força, da potência que há em seu interior. Então, o indivíduo toma a decisão de compreender isso e reduz essa percepção para sua subjetividade, domínio de seus sentidos, onde concretizará e dará forma ao mais sublime subproduto da natureza que é a inteligência.
    E uma vez concluído o processo, retorna objetivamente para diante dos seus iguais e expõe agora um mundo novo, ultrapassando tudo e todas as idéias carcomidas pelo tempo que não pára, e está muito à frente de seus contemporâneos, que não tem olhos para ver e a refinada percepção para entendê-lo (...)"

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