--------------------------------

"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"
(Douglas Adams, 1952-2001)

Fale com O Pirata!!!

opiratadamata@gmail.com
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

sábado, 5 de novembro de 2011

(A Amazônia) é a maior "zônia"?


A Amazônia e Maquiavel

por Luiz Mário de Melo e Silva
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
luizmario_silva@yahoo.com.br / (91) 83636720
Icoaraci – Belém – Pará.

A História não retroage muito menos a natureza e qualquer tentativa em congelar o fluxo de ambas é, no mínimo, crime contra a humanidade em seu processo permanente de evolução. Todavia, isso é tentado constantemente e Maquiavel é convocado para tal tarefa, sobretudo pelos políticos, num claro ato de corrupção.

Quando da produção de O Príncipe, obra que imortalizou Maquiavel, a Itália era  um campo de batalhas entre iguais e seu autor tinha a intenção de unificação – algo diametralmente oposto ao que intentam contra a Amazônia, porque os tempos são outros e como diria o poeta “o tempo não para”, e, por isso,  Maquiavel, mais que algo a explicar , é o complicador.


Se O Príncipe é um tratado, um manual de política para a conquista e manutenção do poder é imperioso pensar, então, que o poder, almejado pela razão, não deve ser exercido por alguns poucos, porque razão e poder tendem a ser os mais elevados potenciais humanos para a manutenção da convivência em sociedade e a razão para tal exercício não deve ter distinções, sob pena de ser algo opressivo porque tende negar a capacidade do pensamento critico para a existência da razão.


À época de seu aparecimento e, sobretudo, pelas circunstâncias em que é elaborada, a obra é mais que necessária, porque renascentista valoriza o ser humano com aquilo que o liberta do obscurantismo da Idade Média, imposta pela Igreja Católica, que é a razão que almeja o poder para a liberdade do ser humano.

Contudo, é importante lembrar que no período renascentista a razão encontra respaldo na incipiente ciência e tem nela uma fortíssima aliada para lutar contra o “poder teocrático” da igreja – aliás, a aliança descambou em tutela da ciência, a qual, hoje, parece ser tratada como instrumento para a manipulação da maioria, e com isso, vindo a torná-la como um arremedo da inteligência (a pseudociência), tendendo a incorrer no mesmo erro que envolve a razão.


No atual contexto, o uso de Maquiavel evoca um passado que não mais retorna, e o que se vê é “o futuro repetir o passado” (...) num “museu de grandes novidades”, como diria o poeta Cazuza. E embora ainda encontre efeitos positivos o florentino está em oposição ao fluxo citado anteriormente, valorizando a máxima de Karl Marx, em que “a História se repete como farsa”.


Ora, isso ocorre porque há a tentativa em manter intacto o status quo do combalido capitalismo que passa por crises intermináveis e só sob trevas tende a se manter inabalável, como ocorreu ao Império Romano às vésperas de sua derrocada, bem como à Igreja Católica, cada qual à sua época, que são exemplos de oposição ao processo de transformação, despendendo, para isso, de grande esforço conservador. E claro que a manutenção – mais importante que a conquista ­- do poder capitalista está na ordem do dia e é preferível a corrupção às atrocidades da guerra (embora esta não esteja de toda descartada) que se espraia aos quatro cantos do mundo, com a globalização.


E nada melhor que a estratégia maquiavélica da corrupção para justificar o fim a que se propõe que é manter o capitalismo. O que se dá por meio da educação repetitiva, enfatizando um centro de controle, como impõem as carcomidas culturas elitistas ocidental e oriental, que se pretendem eternas, muito embora o empirismo, como base do referido trabalho, seja um dado fundamental para a construção e manutenção de algo que se pretenda como real, o que não garante  a eternidade.


No entanto, isso se mostra, no mínimo, perigoso porque como nunca houve uma enorme quantidade de determinada espécie como é a humana, caracterizada pela razão, que não poderá ser impedida por muito tempo de utilizar esse potencial para sua conservação, seu impedimento, em tal circunstância, poderá produzir monolíticos monstros assassinos (um leviatã irracional, por exemplo). Além do que, já não mais estaremos falando de ser humano em sua plenitude e, sim, de algo sem valor (haja vista que este é gerado pela razão) que não merece respeito e consideração; aliás, como vem ocorrendo em diversas situações mundo afora.

Alguém poderia notar que a resistência dos amazônidas à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHBM) poderia evocar um contexto quixotesco. Isso se não houvesse a natureza exigindo sua fatura. E nada melhor de quem ou o quê sempre manteve o elo entre “desenvolvimento” e “atraso” para opinar sobre tema tão polêmico – mas inevitável – como são os índios. Ademais, a unificação proposta por Maquiavel só é possível de ser entendida, atualmente, se observarmos que na natureza ela sempre foi uma constante com o objetivo de garantir a vida por meio da evolução que necessita de todos os elementos existentes, em perfeita simbiose, tornando cada vez mais complexo (amplo) o que surge ao contrário da proposta anterior que é manter estável (ou estático) o que surgiria. 

Portanto, o que se apresentava como novidade, como ocorre ao conhecimento em seu surgimento, tende a se tornar informações, às vezes irrelevantes, com o passar do tempo, embora, ainda assim, possa ser usada como algo positivo por opressores espertalhões contra incautos, obviamente desprovidos de razão crítica, para que estes não percebam o quanto sofrem manipulações e assim, na ignorância, tentam garantir, ad aeternum, a manutenção de uma ordem que se esvai, principalmente por não poder se opor ao tempo concretamente percebido por meio da História e da natureza, sobretudo esta como nova linguagem – aliás, refinada através da ciência, esta que pode ser utilizada para o benefício ou malefício da humanidade, como usou Maquiavel para iluminar o mundo no séc. XVI, e que, hoje, tende a servir para, ao contrário, obscurecê-lo, via corrupção, para justificar a conservação de algo insustentável como a sociedade capitalista/burguesa.  

Algo contra o qual a Amazônia, em sua rica biodiversidade, se apresenta e impõe como divisora de águas. Até porque, para haver Maquiavel é necessário existir Alices, ou doutos Pangloss, que precisam ser superadas para a evolução da humanidade.  


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

por um Anarquismo Amazônida...


Anarquia em relevo

Por Luiz Mário de Melo e Silva

Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci  (FDMAI)

luizmario_silva@yahoo.com.br / Tel.: 83636720

Icoaraci – Belém – Pará.


No dia 07/09, comemorando o dia da independência, o país  foi  tomado por uma série de protestos, sobretudo contra a corrupção. Em Belém, o movimento "Xingu Vivo",  expôs sua contrariedade à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHBM), no Rio Xingu, em Altamira-Pa, além de combater a corrupção.

Se os protestos foram no sentido de garantir e valorizar a res publica, ou coisa pública, por que, então, a aparente contradição entre a defesa e a crítica à coisa pública?

Ora, porque há muito a republica deixou de ser – se é que algum dia o foi – do público, porque o que aí está é privado, particular apossado como foi por meio da corrupção e o autoritarismo do governo, quanto da imposição da UHBM.

Para que isso ocorra, instala-se a anarquia organizada por meio da educação alienante que tem a população como alvo de manipulação e domínio, com a falsa idéia de liberdade para a livre manifestação. Como se vê, tanto a anarquia quanto a república são falsificações – grosseiras, diga-se.

Mas isso não passou despercebido e os autênticos anarquistas reivindicaram, e reivindicarão sempre, o compromisso de fazer valer a verdadeira liberdade ao confrontarem a república instalada no centro da praça com o mesmo nome.

A expressão “VIVA À REVOLUÇÃO SOCIAL” e o símbolo anarquista, escritos sobre o monumento central da praça demonstra o choque entre o que está carcomido pelo tempo e a urgência de mudança em um ambiente que não comporta mais um estado de coisas que beneficia alguns poucos em detrimento da grande maioria - algo só possível porque a população, numa anarquia organizada, é levada a viver  em permanente confronto com os seus iguais, enquanto aqueles que se dizem os responsáveis pela manutenção do bem-estar social só têm olhos para o seu próprio.


Segundo consta nos jornais, a atitude de confrontar a república tinha como alvo “o corte de verba da educação”, como repudiou um manifestante libertário , através da ação e pensamento revolucionários. Pois para uma república corrompida e opressora a valorização da educação não pode ser motivo de liberdade tanto individual quanto coletiva, sob pena de ser letal para os planos de manutenção do status quo.

Mas, como “o que é sólido desmancha no ar”, segundo escreveu Karl Marx, a república que se assiste tem seus dias contados por se sustentar em uma base apodrecida, como é o capitalismo, que vem dando mostra mundo afora de seu esgotamento.

Aliás, só não houve ainda o funeral porque o moribundo assenta-se sobre zumbis moldados pelos educadores “coveiros de sonhos”, estes exímios em desviar a atenção da população sobre a falência em que se encontra a sociedade capitalista, pois se seu cerne (o capitalismo) for colocado sob as lentes da rigorosa ciência (e não a tutelada como ocorreu desde a aliança entre burguesia e ciência, na Idade Média, para combater o poder da Igreja Católica Apostólica Romana, assunto a ser tratado em momento oportuno)  ambos já não se sustentam - o que ainda ocorre porque a pseudociência (fomentada pela veste da educação alienante) empana a percepção de que já não há dinâmica no capitalismo. Até porque atingiu seus limites que são por um lado a economia financeira, ou especulativa, último estágio e, por outro, o mercado que, com a globalização, não há mais para onde expandir (a menos que surgisse outro mercado entre os animais, coisa não de todo impossível nestes tempos de alienação), permanecendo em estado de oscilação constante como se evolução fosse, iludindo, então, incautos num processo de idiotização da humanidade.

Daí que, mais que uma atitude de “vandalismo”, como pretende a falsa república com sua ideologia e o falso anarquismo (logo, sua idéia de vandalismo é falsa) a mascarar o crepúsculo de uma era, com ídolos com pés de barro, a frase com o sentido que a ensejou, sob os pés da estátua de uma criança - símbolo do novo – é, ao contrário, o que mais se apresenta de vigor, num porvir contra a corrupção e o autoritarismo, haja vista que a corrupção e a UHBM são mortes, consequências de uma sociedade decadente e em desespero. E o anarquismo é liberdade, é vida, sobretudo a partir do solo amazônico onde ocorreu o fato em questão. 

Pois, bem como para o amor e para a vida, também para o verdadeiro anarquismo, não existe o futuro. O amanhã é agora, já!

Com muito Amor...


As Vadias
Por Luiz Mário de Melo e Silva 
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
Icoaraci – Belém – Pará.

A humanidade deve sua existência a uma vadia. E que Vadia!, que jamais se submeterá a alguém. Aliás, a tentativa de imposição dessa proposta tem levado a humanidade a sofrer as maiores tragédias de que se tem notícia, coisa que tende a mudar, para a felicidade geral.

A Vadia em questão é a natureza que, na sua vadiagem, deu a luz a quem pretende ser seu algoz e sua porta-voz é a mulher, que, semelhante à vadia-mor, tem vivido as mesmas situações. Na verdade, não há distinções e todas acabam por serem una quando se observa, sobretudo, a capacidade de decidir sobre a vida.

Quem assistiu a Marcha das Vadias ocorrida em Belém, no dia 28/08/10, certamente ficou impressionado e não teve como ficar impassível diante do que se passava, pois as mulheres que ali estavam mostravam uma desenvoltura assustadoramente saudável quando se reflete sobre o que traziam  - e pretendem - seus olhares, gestos, cantos, discursos e palavras de ordem, sobretudo a que dizia “Se o papa fosse mulher o aborto seria legal!, seria legal, seria legal!”. Entre tudo que ocorreu, isso talvez fosse o que mais chamou a atenção.

A palavra era entoada com uma fúria que arrepiava qualquer um, ainda mais se comparada à força da mãe natureza quando se manifesta aos homens através de fenômenos de todos conhecidos.

Também, não era para menos, pois, assim como a natureza sempre foi escamoteada e com isso oprimida, as mulheres, também, historicamente são vítimas de abusos de toda ordem, sejam eles físico, psicológico e ideológico impostos, infelizmente, pela moral masculina - diga-se -, que começa a ser contraditada pela  bagunça que se assiste mundo afora, justamente organizado pelo costume imposto pelos homens – algo inteligentemente percebido pelas feministas quando definem que “a objetividade é a subjetividade masculina”.

Pois o brado em questão, se bem pensado, remete a ideia de liberdade que todos almejam, algo que é inerente tanto à natureza quanto ao ser humano, o que, aliás,  tende a explicar o que se entende por  “natureza” humana em sua mais peculiar característica, haja vista que na primeira a liberdade é total enquanto que na segunda tal pensamento se acha condicionado pela moral – coisa que as mulheres têm tentado superar ao longo dos tempos, embora pareçam não serem atendidas em sua reivindicação.

Aliás, outra coisa em que as mulheres foram muitíssimo felizes foi o fato de não  terem dado à marcha a conotação de algo sexista, pois em consonância com a natureza, que não discrimina ninguém e, ao contrário, nivela a todos e todas ao mesmo grau de importância, e por causa disso fez com que conquistassem mentes e corações de muitos homens ali presentes, ainda que fosse namorados, maridos, amantes ou simplesmente simpatizantes, numa simbiose maravilhosa, onde talvez aqueles homens também se sentissem oprimidos por uma condição que não fora elaborada por eles e acompanhando-as pudessem se sentir um pouco mais livres.

Daí, que venham as Vadias. Pois que, sendo as culpadas pela perda do paraíso, proporcionaram, ainda que com seus sofrimentos, a condição para que a humanidade possa fazer uso da inteligência para alcançar a liberdade, atributos da Vadia maior, tão bem representada pelas mulheres, em sua condição de parideiras (ou não) de algum suposto salvador – coisa que a natureza não tá nem aí. 

sábado, 22 de outubro de 2011

Poesia Amazônida (A Beira)

A BEIRA 
por Amor de Gavião
                                          NA BEIRA EU FUMO ,
                                         NA BEIRA EU DURMO,
                                        NA BEIRA EU NAMORO ,
                                 POÍS ;  NELA EU ME EVAPORO!
                     VIAJO , TRANSCEDO ,TORNO-ME PLURAL,
                                DA HORIZONTAL À VERTICAL .
                    SINTO A NATUREZA A POESIA LITERARIA ,
                  PLURISIGNIFICATIVA , DESCONCEITUAL!

                                   A IMAGINAÇÃO SE ELEVA ,
                                  E NAS ASAS DA FANTASIA ,
                                  O RACIONAL SE DEJENERA ,

                                   POÍS ; NA BEIRA VEJO O RIO ,
                                    HORIZONTES AMPLIADOS,
                                      METAFISICA DA VIDA ,
                                       DA FUMAÇA DO SER ,
                             A LITERATURA DE SEU VIVER !
                                SIM! NA BEIRA EU PENSO ,
                      NA BEIRA LIBERTO-ME DA UNIDADE ,
                              REINVENTO  A  REALIDADE ,
                              VOU PARA  A LIBERDADE!!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Poesia Amazônida (Impasse)

Impasse
Por Nedaulino da Silveiro - Nidau. 
In Caiporismo e outros poemas.

Olha,
Bem!
Procurei presentear-te
É teu aniversário
Porém
Possues todo presente material
que eu quisesse
te oferecer
Mas não faz mal
Tentei, insisti, pensei...
livros, perfumes,
tudo, tudo já tens, Bem
Uma flor!
Que pena amor, pois
entre todas as flores que conheço
És a mais bela
Então notei
Algo de mim... pensei,
a minha vida! quem sabe?
Puxa!
Mas este foi o primeiro presente
que te dei!...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Mitos, muitos.

A Amazônia e a besta
Por Luiz Mário de Melo e Silva 
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
luizmario_silva@yahoo.com.br
 

Os homens sempre procuraram se orientar por algo que irradiasse poder para que, a partir daí, exercessem o controle sobre o mundo.

No início, o mito fornecia as condições para o mando a quem, com certa habilidade, incutisse o medo nos demais, ainda que sua finalidade não fosse essa. E embora já não estejamos mais no tempo em que ele era usado para explicar o que ocorria, muito do que subsiste na sociedade se fundamenta nele (mito) para manter-se como o centro, como ocorre à elite, por exemplo.

E, a menos que a elite haja abdicado de sua pretensão de ser o centro entre os universais, a atitude do norueguês Anders Behring Breivik aponta para essa condição mitológica.
 
Certamente que sua atitude não deve ser encarada como algo isolado. Antes, porém, tem que ser pensada como a reivindicação de algum suposto direito que se esvaiu. Direito este, de ser o centro irradiador de cultura, como há muito tempo se pretendem os europeus. Logo, o ato de Anders tende a se parecer como a tentativa de resgate de um poder perdido.

Dois fatores se apresentam como justificativas para o ocorrido: primeiro, a crise capitalista; o segundo, a questão ecológica.

Todavia, antes da exposição dos fatores é necessário lembrar que ambos são de fundo material e como somos todos materialistas, a retirada dessa base leva à derrocada sem que haja algo sobrenatural a provocá-la, como pode ocorrer a algum ilusionista ao tentar empurrar goela abaixo o motivo pelo qual agiu A.B. Breivik.

No primeiro caso, se usada a metáfora das competições anuais de futebol, onde há ascensão e descenso de clubes, fica claro que a crise capitalista desloca a Europa de uma categoria superior para uma posição inferior na tabela de colocação.

No segundo, utilizando das observações da física quântica, para a qual não há um centro fixo, e talvez nem haja centro (e aqui é necessário compreender que ciência é linguagem refinada da natureza), a natureza, por sua dinâmica, dilui toda idéia de centro, contra a qual lutam os ocidentais a partir da cultura européia.
 
Daí que, a conjugação desses fatores tem provocado o desespero do velho continente e o perigo iminente de queda jamais será pacificamente aceito. Até porque, sendo nórdico, como escreveu Behring, logo, elite européia, como sugere, não se resignará à fatos que fogem a seu controle E como tal, a atitude do norueguês certamente conta com a simpatia de muitos líderes políticos do continente, pois o que está em jogo é a sua sobrevivência, ainda que assentada no mito da superioridade da cultura – o que já deveria ter sido revisto, pois, como exposto anteriormente, o mundo não está estagnado. Ou não?
 
Aliás, se faz necessário uma revisão geral da História quando a questão ecológica (a natureza) se impõe, porque, como bem colocou Karl Marx, ao dizer que num primeiro momento a História se apresenta com tragédia, num segundo, como farsa, a reivindicação sugerida na atitude do norueguês atenta contra a inteligência. Sim, porque durante muito tempo o distanciamento total concernente à importância da natureza para o surgimento do mundo foi a tônica, algo que já não é mais possível hoje, haja vista que a evolução havida permitiu o surgimento da inteligência que é o mais sublime subproduto da natureza, e contra a qual (a inteligência) não há quem ou o que se oponha.
 
E tratar o multiculturalismo como a causa da suposta decadência da Europa enquanto referência mundial, pretendendo que o mundo volte atrás e negue o “trabalho” da natureza no que diz respeito à evolução do mais simples ao mais complexo, já que, a diversidade cultural é análoga à biodiversidade, sendo, portanto, impossível impedir a expansão e surgimento de um novo pensar e ver o mundo como propõe a cultura a partir das mais diversas nuances, é tentar negar mais uma vez a importância da natureza, através da pretensão da superioridade de sua cultura, como sempre fez a elite que se pretende o centro do mundo e que, a todo custo, repudia a idéia de vir a ser apeada de sua mitológica condição.
 
Esse temor só se justifica pela negação das infinitas relações existentes entre os inúmeros elementos da natureza a gerar o novo, como também ocorre com a cultura que semelhante àquela tem somente o adiante e nunca o anterior – coisa que a elite trata como um monólito por tentar manter seus costumes e, por meio deles, suas benesses.
 
Nesse sentido, a Amazônia se faz um manancial de saberes e coisas que, embora se apresente, por comparação, confusa por imposição cultural elitista que despreza o popular, como se primitivo fosse, se contrapõe à besta por ser a natureza materializada e, por isso, traz em seu bojo todo vigor da transformação que descentraliza e unifica permanente todos os eventos presentes, com conseqüências inimagináveis, para daí continuar ad aeternum como a vida. Abarcando, inclusive, a quem tenta tutelá-la com seu discurso falido, como é o norueguês.
 
À insustentável condição elitista diante da natureza cabe a pertinente pergunta: se houver uma elite na natureza, qual seria ela? É a vida que está em pé de igualdade tanto para o mais simples quanto para o mais complexos dos organismos, a resposta. Logo, não há um centro discriminador na natureza.
 
Assim, o ato da besta loira tem que ser enquadrado como crime de lesa-humanidade e esclarecido para o mundo se não quisermos ver repetir outra carnificina em escala mundial, além, claro, da involução da humanidade, porque, do contrário, sua atitude seria uma tentativa de rejuvenescimento da elite – essa açougueira contumaz -, que, por isso, se pretende eterna. E, se assim for, ela (a besta) merecerá, então, um monumento em homenagem pelo feito.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Poesia Amazônida

VEM, MEU BEM
(Nedaulino da Silveira, "Nidau". In: Caiporismo e outros poemas)

A Belém vem,
        Vem meu bem
                     ver Belém
        Vem ver bem
                  o que minha Belém tem

                  Belém do açaí
                       Cupuaçu e maniçoba
                                  e Belém tem também
                       Bacuri e tacacá
                                 vem ver e provar pra ficar

         Em Belém
                     também tem
                     amor e bem, vem
                             vem ver Belém

Vem, vem ver
         Minha Belém
                    de morenas cheirosas
                    e mangas gostosas

         Vem ver o que Belém tem
                     Tem em Belém, pau-rosa
                     igarapés, pirarucu
                           tem em Belém

Ainda em Belém
          Vem vem
                      tem banho cheiroso
                             e pato no tucupi gostoso

         Fica em Belém
                 meu bem, pois...
                 Dois bens: você e Belém
                           vão se dar bem
                                  meu bem!

sábado, 6 de agosto de 2011

Natureza (Pelourinho Nacional)

Pelourinho nacional

Por Luiz Mário de Melo e Silva
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
e-mail: luizmario_silva@yahoo.com.br
Icoaraci – Belém – Pará.

Nunca antes na história deste País o complexo de vira-lata esteve tão fortalecido como agora por ocasião da imposição, pelo governo federal, da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHBM), em Altamira-PA.

É de imperiosa necessidade observar que diante do imenso e veloz avanço da ciência e da tecnologia tal empreendimento parece obsoleto, com o agravante da desconsideração da biodiversidade, quando a humanidade caminha em busca de um porvir a valorizar a vida em harmonia com a natureza – coisa que os defensores da UHBM solenemente desprezam ao deixarem de cumprir as condicionantes para a implantação da obra.

Tal situação se assemelha a alguém que se gaba de possuir roupa nova, porém confeccionada com tecido velho. Ou seja, vangloria-se por pretender possuir novidade sem perceber a obsolescência a que está submetido.

Ora, outra não é a índole deste País que se pensa evoluído a partir de idéias carcomidas pelo tempo, como se fosse o exemplo de superação, pois, remontando sua história, veremos que a essência é não possuir essência, já que esta fora esmagada no nascedouro com a invasão européia; aliás, se há alguma originalidade no que se assiste, esta é ser tangido pelos de fora como, hoje, se repete, em nome do desenvolvimento, mais do que nunca, como farsa.

A hidrelétrica de Belo Monte até poderia ser pensada como um monumento desenvolvimentista se não houvesse a percepção da valorização da biodiversidade, como ocorreu no período da Revolução Industrial, havida na Europa, no séc. XVII, onde a Natureza era percebida como algo do passado.  À época, quem, por aquelas bandas, exigisse reforma agrária, seria desterrado. Ou seja, no ciclo evolutivo, os gringos podem ser livres para seguir, e, para os amazônidas, em tempos de valorização da biodiversidade, é imprescindível fazer todo o percurso de outras nações? Se assim for, que tal a reforma agrária na Amazônia?  Isso sem levar em consideração, como o discurso de caráter oficioso impõe, a história de povos originário e que ainda permanecem na região.

Numa observação acurada as barragens se assemelham à cercas, delimitando propriedades particulares; são verdadeiros currais – coisa que nestes tempos de exaustão de alguns recursos naturais, agravado pelo consumo exorbitante, serão cada vez mais evidentes (e contundentes), ainda que venham a possuir outras configurações, como a militar e a ignorância (talvez a de maior investimento para tornar cativos os povos) por exemplos. E na Amazônia, as barragens, são aberrações. Um escárnio à inteligência, à própria Natureza se aquela for entendida como um precioso subproduto desta, sobretudo se o conhecimento, o saber e - em última instância - a ciência se apresenta como sua linguagem refinada.

Essa condição sugere total ausência de uma filosofia e ciência exclusiva do ambiente amazônico, pois, ainda que haja alguma tentativa em produzir algo original nesse sentido, todo esforço tende a ser influenciado por doutrinas estrangeiras, comprometendo negativamente tal propósito, além, claro, de contar com a incompetência (para lidar com o interesse público nacional, diferente do privado internacional) do governo, como bem demonstra o Profº Dr. Mário Ramos Ribeiro, no artigo “Uma corte internacional para o meio ambiente”, (O Liberal, 11/06/2011).

No referido artigo Ribeiro comenta que o francês Brice Lalonde, secretário executivo do comitê preparatório para a Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (Rio+20), em 25 de maio passado, “defendeu a criação de uma corte internacional para o meio ambiente”, onde “Por ser um tribunal da Nações Unidas, ele teria o poder de gerar normas de força jurídica imediata (“legally binding”). Teria o poder de “distinguir na Amazônia quem e quem”. Dizer qual atividade econômica seria carbono-intensiva (usaria de energia não renovável, como o combustível fóssil), e qual atividade econômica seria de baixo-carbono. Possuiria ainda a faculdade de “punir”, sancionar, determinar embargos, de definir “regras de procedimento”, mecanismos de compensação e – pasmem! – poderia inclusive determinar a retirada dos subsídios agrícolas, um velho sonho internacional”, sem que o governo federal houvesse se pronunciado “sobre a Proposta Lalonde” – proposta que certamente influencia na celeuma sobre a UHBM, tendendo a manter o povo de quatro, no momento em que a Amazônia poderá ser o encontro do elo perdido do ser humano e sua essência, impulsionando o Brasil a um patamar superior ao de países considerados de primeiro mundo.

Como se vê, a idéia sobre Belo Monte tem por objetivo consolidar o complexo de vira-lata, tão falaciosamente contestado pelo ex-presidente Lula quando no exercício do mandato, num discurso que destoa completamente da prática, só tendeu a subjugar a autoestima do povo brasileiro no que se refere à questão ambiental, e, que certamente contribuiu – e contribui - muitíssimo para o que se assiste hoje. Sendo tal condição homenageada pelo monumental pelourinho, “símbolo da autoridade e justiça” dos “donos do poder”.    .