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"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"
(Douglas Adams, 1952-2001)

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Crônica Amazônida

Crônica publicada dia 16 de fevereiro de 1964, no jornal "A Província do Pará", por VERA MOGILKA, jornalista gaúcha, que retratou de modo interessante o Tacacá em diversos dos seus aspectos.



"O tacacá, toma-se? Bebe-se? Sorve-se? Saboreia-se? Não, o tacacá

deseja-se, de repente, como se deseja uma mulher, como se deseja retornar

ao amor da adolescência. O tacacá possui o toque agudo da saudade.. A

memória de seu sabor salgado e ardente assalta-nos sem aviso, em pleno

dia, em determinadas horas de distração. Naquele momento involuntário de

repouso quando, por fim ao cair da tarde sobre o rio, respiramos. Certo e

pequeno instante, dezenas de sugestões cruzam a mente. Todos os atos

gratuitos e cheios de graça da vida: uma criança correndo na grama,

braços em repouso e um regaço, mãe amamentando o filho, avião acendendo

e apagando as luzes na bruma da noite, navio singrando a baía, luar úmido

sobre igarapés - vontade de tomar tacacá. Desejo de tacacá. Porque, para

tomá-lo, é preciso, antes de tudo, um ritual.

É preciso que seja ao anoitecer. Ainda não de todo noite completa; ainda

não dia findo. Àquela hora semi-crepuscular, indecisa e feminina quando,

por fim, o céu se envolve de um azul-cinzento intenso ou aquela chuva

antes da saída da lua. É preciso que estejamos cansados, tão fatigados

que nada nos afigure mais necessá¬rio, naquele momento, do que tomar um

tacacá. Nem o bate-papo informal com o amigo. Nem o café na Central. Nem

o olhar à mulher que passa. Apenas, a pro¬cura, a única procura por um

tacacá, com pouca pimenta ou muita e bem quente.

Depois, é preciso que haja um banco. Tacacá toma-se sentado para que o

corpo repouse e possa se entregar completamente ao prazer de saboreá-lo.

Porque o tacacá é extremamente absorvente. Quando bem feito, o que ocorre

pouco. Pois fazê-lo e tomá-lo é uma arte.

É preciso, também, que a noite desponte ao chegarmos junto ao carrinho de

tacacá E comece a chover, levemente. Faça algo de frio, algo de úmido.

O que não é difícil em Belém. Depois, como estamos cansados e queremos

esquecer, esperamos. Uma paciência longa e calma, até que a dona do

tacacá termine por prepará-lo. De preferência que seja em Nazaré ou

olhando a Igreja da Trindade. É preciso que o tucupi seja leve,

amarelo-canário e novo. Que a goma bóie no líquido, espalhada por acaso

e se mostre apenas por alguns instantes; que não haja muita folha; que os

três ou quatro camarões sejam médios, nem grandes demais ou minúsculo e

somente uma parte deles apareça, a ligeira carne rósea a deixar-se

entrever, adivinhar-se na cuia olorosa. Depois, é preciso que haja sal e

pimenta de cheiro, mas não em demasia; o suficiente para nos queimar a

alma nos primeiros goles e reanimar o corpo; então renascemos para a noite

e a alegria novamente nos habita. O suficiente apenas para desvanecer seu

fervor após esses primeiros goles e tornar-se depois, uma presença

quente, já quase uma memória, na ponta da língua.

É preciso saber tomar o tacacá. Aos primeiros sorvos integralmente seu

calor, sua salinidade, seu gosto de mar quente, de arbusto e molusco que os

lábios experimen¬tam fugidiamente. É preciso que o jambú e os camarões

pousem lentamente no fundo da cuia e venham à boca, por si mesmos, sem o

auxílio dos dedos. É necessário que não sejamos interrompidos. Apenas

um aceno de cabeça aos conhecidos que passam. Um filtro mágico que se

bebe em silêncio e solidão. Somente a comunicação imperceptível com a

tacacazeira: feiticeira moderna numa terra onde as lendas ainda sobrevivem

em um mundo que se materializa inexoravelmente.

Chegados ao fim do tacacá, é preciso que o mesmo ainda se conserve morno,

assim como o fim de um amor. Jamais frio. Não existe nada pior do que um

tacacá frio. É como champanhe sem gelo. Neste momento tomaremos contacto

real com as grandes porções maternais de goma penetradas pelo tucupi e

pela amargura das folhas. Há sempre um gato gordíssimo perto do carro de

uma tacacazeira. Ele comerá, displicentemente, as cascas de camarão que

atirarmos ao chão. A cuia está vazia.

Agora, o mais importante: jamais repetir o tacacá, na mesma noite. A

segunda cuia nunca devolverá o sabor da primeira. O primeiro tacacá

daquele dia é único, autêntico, original, insubstituível como o gosto

do primeiro beijo. Como a primeira entrega de amor. Porque os tecidos de

nosso cansaço e de nossos desejos são satis¬feitos. Porque foi

necessário todo um dia infrutífero e todo um sol de toda uma chuva para

alcançá-la. Todo o equívoco das relações humanas, toda a falta de

solidariedade, de cortesia, de amizade e de comunicação com os outros. A

decep¬ção será fatal se arriscarmos um segundo, fiéis à gula. É

preciso permitir-se um resto de fome, um resto de desejo para o dia

seguinte, um resto de tristeza intransferível. Quando a baía abrir suas

margens de musgo para recolher as asas do dia; quando a lua surgir em seu

halo de chuva; quando chegarmos ao fim de nossas tarefas cotidianas,

então, novamente, sentiremos na ponta da língua a subtaneidade acre do

tucupi.

Paraenses, não vos espanteis com essa narrativa. O que, para vós é banal

e acessí¬vel desde a infância, para um sulista é um mistério, uma

surpresa e um inédito prazer. Muito comum é o visitante de outro Estado

que vem a Belém pela primeira vez e olha, desconfiado, aquele grupo de

pessoas ao redor de um carro de tacacá. Os movimentos das mãos da

tacacazeira lavando as cuias e servindo-as, Os utensílios tos¬cos,

rudimentares. O turista, cheio de suspeitas e de teorias antissépticas,

recusa-se a prová-la com argumentos de falta de higiene. Procura máquinas

a vapor que sequem automaticamente as cuias. Busca torneiras reluzentes de

onde jorre um tucupi sintético e insosso; e só encontra aquela magia

indígena, obscura, incons¬ciente perante a qual recua porque seu

coração não possui mais raízes fixas no mistério da natureza.. Porque

não é mais um homem natural.

Paraenses, vós desconheceis vossas próprias riquezas. Dia chegará a que

o gi¬gante levantará a grande cabeça de florestas de seu berço

esplêndido e o Brasil será redescoberto (não mais pelos portugueses). O

tacacá deixará de ser um usufruto particular e banal. E, em clima frio e

chuvoso como o de São Paulo será servido à noite, entre centenas de

sessões de cinemas super luxuosos. Milhares de tacacás industrializados,

produzidos por intrincados mecanismos de alumínio e aço. E o mistério

amazônico perder-se-á para sempre. Será recolhido ao coração de alguma

floresta ainda virgem, porém, impenetrável e densa. Lá onde os homens

não possam mais capturá-lo e bebê-lo, distraidamente, sem amor e sem

ritos. Lá onde, enfim, seu selvagem sabor repouse intacto e inacessível

no bojo do tempo."

quarta-feira, 23 de março de 2011

Poesia Amazônida


Natureza

Natureza vilipendiada

por Luiz Mário de Melo e Silva

A sociedade voltou seu olhar para a natureza, mas ele não é algo virtuoso. Antes, porém, parece conter considerável dose de desaprovação, por ela (natureza) obrigar a sociedade a perceber sua fragilidade ante o inelutável processo de evolução – sua lei fundamental. Ensejando, por isso também algo pavoroso sendo, portanto, um olhar revelador.  

Num primeiro momento, isso só foi possível devido ao esgotamento de muitas matérias-primas, além da certeza que ocorrerá o mesmo com muitas outras, que, utilizadas na confecção de bens de consumo, garantem destaque a quem os possui em enormes quantidades. Portanto, é pelo desaparecimento de recursos naturais que a sociedade, a contragosto, tende a valorizar a natureza, por  conduzir à perda, que, na sociedade capitalista, nada mais é que prejuízo econômico –  o grande desastre da civilização.

Mas tal valorização encontra certas dificuldades, porque, ao imaginar-se como que apartado da natureza, e, portanto, pretendendo-se superior a ela, o homem, vindo a se organizar em sociedade, criou “leis”, como o consumismo, por exemplo, que atualmente é o padrão a modelar a conduta ética e moral da sociedade, conferindo status político/econômico/social a seus membros por desfrutarem da citada condição - coisa que a imensa maioria não está disposta a abrir mão em detrimento da natureza, mesmo que isso configure risco à sua existência.

Em momento seguinte, e talvez seja o que importa verdadeiramente, as catástrofes observadas mundo afora é o que reforça esse redirecionamento da atenção, pois é mais do que óbvio que elas são sempre humanas e não da natureza que manterá seu curso ad aeternum “sem se importar” com as transformações havidas. Aliás, são estas que definem o que seja natureza, cabendo aos elementos constituintes participarem ativamente do processo. É claro que para o ser pensante e sensível essa condição se assemelhe a uma prisão, coisa facilmente dissipada se atentar para a dinâmica a que está envolvido desde o nascimento.   

Ainda que a relutância em reconhecer a imprescindível importância da natureza para sua existência esteja condicionada por um valor moral que a sociedade, em cada época, reputa como absoluto (o consumismo atualmente, por exemplo), a mesma não pode evitar a natural dinâmica evolutiva impressa, sobretudo, em seu interior, haja vista que esta foi e continuará sendo o que a impele a continuar existindo. Dinâmica, que, aliás, é inerente ao ser advindo da própria natureza, como é o indivíduo, por exemplo, núcleo atômico da sociedade, logo, transformador de si concomitante ao ambiente em que se encontra.

Por que, então, a insistência em manter algo que não escapa à  força da natureza? Porque, ao se pretender diferente dela, o homem, agora em sociedade, se pretende também diferente da maioria. E para tentar preservar-se como tal, determina uma condição a ser ocupada por se julgar superior, pretendendo-se insubstituível, estabelecendo,  então, a ideia de elite.

Mas é um equivoco imaginar-se como que apartado da natureza, ocorrendo o mesmo ao se observar a sociedade com distinção de classes, onde um grupo tende a ser preponderante com sua existência se devendo ao uso da força - ainda que para defender tal distinção haja o argumento da presença de indivíduos superiores devido ao intelecto, ou gênio, algo refutável, haja vista que o intelecto, ou genialidade, se desenvolve na relação em sociedade muitas vezes sob conflitos e não fora dela, comprovando a dependência do indivíduo em relação à coletividade.

Contudo, o mal-entendido que prevalece por algum tempo, tornando-se quase imperceptível para a maioria, chega a um limite insistentemente contornado pela coerção exercida por instituições estabelecidas para garantir o status quo vigente, provocando um acúmulo de conflitos que tende a impedir a percepção da natureza enquanto referência para a humanidade lidar com as dificuldades surgidas ao longo de sua existência.

Ora, nestas condições a negação da natureza levou, então, ao extremo de se pensar não mais a sociedade dada como algo diferenciado da humanidade - o que é saudável -, ainda que para isto seja necessário rever os conceitos impostos como verdades absolutas, pois só assim o conceito de humanidade, no sentido de totalidade do entendimento real de tudo o que é possível e imaginável possa ser atingido em sua plenitude sempre dinâmica. Coisa negada por pensadores vigorosos, como Kant, por exemplo, que sugere que “o filósofo já nasce pronto, acabado”. Noção copiada e seguida por muitos pensadores a serviço da falsificação do entendimento do que seja a natureza, ainda que “involuntariamente”. O que em si adquire a negação da dinâmica natural contida na matéria, no tempo, no espaço etc., isto que se revela como o mais plausível para o entendimento da dinâmica das relações humanas e desta com o meio natural, mas que não pode ser assimilado pelo povo enquanto processo de libertação – pensamento que está mais para a fomentação da fragmentação, do reducionismo do ser humano, logo, da natureza, daí que é algo pensado, calculado, para o domínio desta e, consequentemente, da humanidade.

Daí que, a prática humana, através da transformação do meio e, consequentemente, de si mesma, no processo das relações sociais, como ensinou Karl Marx, tende a ser a linguagem mais plausível do que seja a natureza e esta, mais do que nunca, não pode estar sob o controle de um centro, de um pequeno grupo, que sempre a vilipendiou e, com isso, usurpou sua condição de referência de manutenção da vida. 

E as tragédias, as falências econômicas (sempre humanas) demonstram os limites dos referenciais impostos, assim como foi com o Império Romano, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e, hoje, o Capitalismo que vive seu estertor, ainda que sob uma tentativa de abafamento desta condição por seus acólitos que ingenuamente imaginam serem destaque, com suas vaga, num corpo moribundo, como o mercado. Contando, assim, com sua idiotização. Por isso a desaprovação e o pavor revelador da sociedade capitalista  - óbvio.

Autor: Luiz Mário de Melo e Silva 
luizmario_silva@yahoo.com.br // 92343620
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoraci (FDMAI)
Icoaraci – Belém – Pará

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LUCTO

O devir

Definir a vida é algo que escapa ao ser finito, justo por essa condição. Todavia, as infinitas relações numa prática diária tende a ser a aproximação dessa definição, pois a vida é inesgotável e, sendo assim, o individual não atinge a real dimensão do que seja ela, mas alguns, como seus exemplos, conseguem sugerir passos no sentido de facilitar o entendimento.

O professor Benedito Nunes é um desses exemplos. E quem manteve contato, por menor que fosse, com ele não poderia deixar de perceber isso, saindo transformado do encontro.
O mestre era puro devir. E isso o tornara sábio. É tanto que para perceber tal condição em que chegara era necessário a ousadia de confrontá-lo, sem receios.
 
Em uma de suas aula sobre niilismo isso tornou-se de uma clareza solar, quando ao final de sua explanação pediu que perguntas fossem feita, dizendo que elas poderiam ser sobre qualquer coisa.
 
Ora, nada mais perfeito a um sábio, pois, após discorrer sobre o nada sua proposta permitiu que todos aprendessem a partir das condições apresentadas, inclusive o próprio.
 
Naquele momento não havia perguntas absurdas e as supostas ingenuidades contidas poderiam apontar um novo caminho para um mundo em permanentes transformações – e ao transformar o mundo o ser humano transforma a si mesmo, como ensinou Karl Marx.
 
Daí que, o que o professor fez foi tornar-se aprendiz enquanto ensinava, numa dimensão em que só os sábios são capazes de alcançar, buscando sempre o novo numa relação infinita como o saber, sobretudo a partir do contato humano, como pareceu na ocasião. E ao fazer isso se renovava, se transformava permanentemente. Era o devir. A vida, com toda sua magnitude, em pessoa que permanecerá com seus ensinamentos.
 
Autor: Luiz Mário de Melo e Silva (luizmario_silva@yahoo.com.br)
Icoaraci – Belém – Pará.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amazônia, Mel-de-abelha e Cárie?

A bola da vez*

Conhecimento nunca é demais e seu excesso é saudável, por isso recomendável a qualquer idade. Todavia, seu uso fragmentado é pernicioso e tem levado à violência, como demonstra a História, recheada de exemplos.
 
A Amazônia não foge à regra quando não tem demonstrada toda sua potencialidade e acaba por se tornar vítima dessa violência.

Em parte isso ocorre a partir da desvalorização de seus produtos, supostamente por conglomerados econômicos visto que, num mundo dominado pelo consumismo e uma disputa selvagem por espaço, onde o outro tende a ser aniquilado, as mercadorias amazônicas são consideradas de qualidade inferior, e, em alguns casos, sugeridas como nocivas, daí a opressão, logo, violência. Quem esquece da ênfase dada ao açaí quanto à doença de Chagas?
 
Nada contra informar o consumidor sobre o benefício ou malefício do produto, aliás, é de vital importância. A questão é a hipervalorização do que é negativo, tendendo à deturpação, ao isolar apenas uma substância da totalidade de sua composição.

Outro caso de suposta tentativa de desvalorização dos produtos amazônicos ocorreu por conta da apresentação do Trabalho de Curso (TC) pelas alunas Helane Glayde e Nayana Souza, alunas egressas do curso de Odontologia do Centro Universitário do Pará (Cesupa), como publicado no jornal Diário de Pará, em 07/02/2011.

Quem depara com a matéria intitulada “Estudo paraense descobre que xarope provoca cárie” não pode deixar de sentir certo desconforto com a ênfase dada à ação do mel, base do medicamento em questão.

Num franco processo de reducionismo, tomando o todo pela parte, onde o destaque é a maior acidez e menor ph do mel., há talvez a sutil tentativa de induzir ao equívoco quem faz uma leitura apressada do assunto tratado, até porque, a sacarose (açúcar), substância predominante no mel, como é do conhecimento de todos, é a grande preocupação dos pais na alimentação das crianças, justamente pelos malefícios causados, pois é encontrado em grande parcela de alimentos e xaropes das mais variadas marcas – embora sua metabolização pelo organismo seja benéfico como fonte de energia.

É claro que isolado e em contato com outras substâncias, com igual ou maior teor de acidez, encontradas nos mais variados alimentos e em reação química permanente, pode haver o surgimento da patologia dentária, segundo o estudo, observação que o mesmo, como demonstra a matéria, foi omisso. 

Ora, o contrário do enfatizado no estudo sobre o mel é de imperiosa necessidade para se ter ciência verdadeira, pois como possuidor de nutrientes (a obviedade é proposital e necessária), estes em reação à nutrientes de outros alimentos certamente tornará os dentes mais resistentes ou, quem sabe, até imunes à afecções naturais. E sendo isso solenemente escamoteado, não fica bem a uma pesquisa científica, com a obrigação de observar e orientar sobre as vantagens e desvantagens de qualquer medicamento – o que denota um viés tendencioso. Teria sido esse um fato deliberado ou consequência de algum descuido?

O certo é que, como ocorreu ao açaí - que, com a máxima valorização do protozoário, causador da doença e algo externo à fruta, motivando o amazônida a se manter como mero colono e deixando de ser produzido “artesanalmente” para consumo e exportação, passando a ser comercializado in natura em grandes escalas por indústrias, talvez até estrangeiras, causando a perda do controle sobre algo genuíno desse povo - o mesmo tende a ocorrer com o mel e, sobretudo, com a própria Amazônia  se constantemente houver estudos desse tipo, além é claro do silêncio obsequioso das autoridades  e da sociedade dita esclarecida.

Portanto, num mundo dominado pela ciência (ainda que esta, por questão política, tenda a ser apanágio da elite, e por isso se transforme em pseudociência quando exposta ao povo) e tecnologia é fundamental para a Amazônia e para o mundo que o conhecimento seja total, sem contra-indicação, pois mais do que nunca a humanidade depende da biodiversidade, essência da Amazônia. Esta que engendrou naturalmente seu conhecimento sem discriminar outros saberes e assim manteve-se como fonte e exemplo de vida não pode ser a bola da vez, no que diz respeito à degradação, a partir de seus produtos, por conta de interesses escusos no cassino do capitalismo moribundo e - por isso - desesperado. 

*Autor: Luiz Mário de Melo e Silva (luizmario_silva@yahoo.com.br)
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI), Icoaraci – Belém – Pará

domingo, 2 de janeiro de 2011

Natureza

Amazônia

A contribuição dos gregos antigos para a compreensão de parte da vida com sua mitologia, onde estão simbolizadas as forças da natureza, através de deuses e a relação deste como os humanos, representadas também pelos diálogos, conflitos e castigos, que levam à reflexão, é algo que não se esgota. Ao contrário, tem seu correspondente em outros mitos que em nada ficam a dever.

O mito de Ícaro, talvez seja o que melhor represente a realidade amazônica nestes tempos de valorização da natureza, pois, nele, a liberdade é o objetivo, ainda que, a prisão, representada pela morte, seja o desfecho – coisa que não ocorre na Amazônia.

Conta a lenda que, tentando fugir da ilha de Creta, Ícaro, com a ajuda do pai usa asas confeccionadas em pena e cera. Porém, é informado para não se aproximar do sol que derreteria a cera ou próximo ao mar, que umedeceria as penas, tornando-as pesadas, dificultando seu objetivo. Inebriado pela sensação de voar livremente esquece o conselho e tem a cera derretida, caindo para a morte no mar da região que receberia seu nome.

A lição que fica é que a liberdade é perigosa? Ou que todos estamos condenados à prisão, sobretudo pela morte?

Na Amazônia o mito em questão tende a outro sentido. É a proximidade do sol e de tudo que constitui a natureza que dá mais vida, e daí a liberdade. Aliás, se há uma linguagem única para a natureza e o ser humano esta é a liberdade que para aquela se configura na beleza da inelutável força da evolução na infindável relação entre todos seus elementos e para este, algo ainda conflituoso, mas nem por isso indesejável.

No artigo “Água no coração” (portal Yahoo!/Brasil, em 01.12.10), do jornalista Lúcio Flávio Pinto, isso é esplendidamente retratado quando diz “De uma coisa não tenho dúvida: sou um homem das águas, um ser anfíbio”. Ora, para o amazônida da gema isso não é novo; basta observar o ribeirinho em contato com o rio, a terra, a floresta e o saber resultante disso para ver e sentir quanto o “icarismo” redunda em equívoco. A novidade é a declaração para o mundo.

Se no mito voar em direção ao sol ou próximo à água é perigoso, na amazônia, (com seu primitivismo prático, característica do mito original),   ao contrário, é a aproximação da luz do conhecimento, simbolizado pelo sol, a geradora do entendimento de que o retorno permanente (sisifismo à parte) ao colo da natureza – terra ou água - é inevitável para encontrar a liberdade, no sentido em que se acha na natureza se admitirmos que o ser humano é sua condensação, embora o individuo o seja em mínima escala a se ampliar no coletivo, com a dinâmica das relações.

Outro excelente exemplo é descrito no poema “Papo com Iara”, de Álvaro Jorge, com seu regionalismo. Nele, o violeiro recusa o convite para acompanhar Iara em seu rio de amor, talvez temendo sua profundidade, logo, a prisão nele.

Ora, o amor nunca é prisão, muito menos pela morte. E numa analogia ao voo perigoso de Ícaro é, ao contrário, liberdade, vida, pois nunca se soube que o amor matou alguém de fome ou de sede etc, aliás, quem ama quer morrer dele e por ele. Os amantes de Verona (Romeu e Julieta, de Shakespeare) e Jesus Cristo, os primeiros, num amor individual, o segundo, pela humanidade, num amor coletivo são, respectivamente, exemplos de que o amor não é prisão.

Podemos deduzir, então, que parte da diferença do mundo amazônico em relação à outros mundos está no fato de sua história iniciar sem deus, e portanto materialista, oposto dos gregos antigos, que, talvez, por carência de elementos naturais – coisa que na Amazônia, por sua biodiversidade, é infinito e riquíssimo para contribuir em sua dinâmica - lancem mão da idéia de divino para diversificar e escrever sua história.

Essa materialidade, com fluxo e refluxo permanente, criando e recriando e tornando a criar novamente, num tempo diferente ao das grandes e médias cidades, para quem o tempo é regido pela velocidade das máquinas, com o único objetivo de lucro, é outro detalhe importantíssimo – aliás, como os demais – que em seu conjunto no mundo amazônico envolve a pessoa amazônica, fazendo com que ela se descubra e redescubra, ad aeternum, tirando desse processo cada vez mais vida, deixando de lado outros objetivos e, por isso, tende a ser maldosamente confundido como indolência a gerar povo indolente.

Daí que, a Amazônia, com tudo o que lhe diz respeito e sem dever nada a ninguém, tem tudo para contribuir na construção de um mundo melhor. Sobretudo quando a civilização elitista, gerada de mitos que se pretendem como os únicos a determinar a história da humanidade, parece não mais comportar valores para um mundo em permanente mudança.

Autor: Luiz Mário de Melo e Silva 
luizmario_silva@yahoo.com.br
Coord. do Fórum em Defesa do Meio Ambiente de Icoaraci (FDMAI)
Icoaraci – Belém
Pará.

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‘PAPO COM IARA’
(Alvaro Cordeiro) 

Olho p’ras lágrimas indianas
Que vão se despedindo
Do meu medo de amar...
             ...
- Vô cuntigo inão mãe d’agua, cá em cima toco meu violão.
         ...
- Ah! Moço bunito, num dispreza canto meu inão.
            ...
- Cá em cima du rio vejo as istrelas e o luar.
           ...
- Ah! Moço bunito, lá dibaixo também há.
           ...
- Cá em cima du rio num tem solidão inão.
          ...
- Ah! Moço bunito, lá dibaixo também num tem inão.
         ...
- Cá em cima sou livre pra avoar.
         ...
- Ah! Moço bunito, teu medo num ié di mim inão; teu medo moço bunito ié di merguiar nu fundo du amar.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Evolução (Natureza)

Programa realizado pela TV PUC com o tema Evolução.

PARTE I



PARTE II



PARTE III





PARTE IV




PARTE V




PARTE VI



PARTE VII




PARTE VIII



PARTE IX



PARTE X
Evolucionismo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Matemática (Gregori Perelman)

A Escola Russa de Matemática

Procurando na internet sobre alguns notáveis na matemática de origem russa, deparo-me com a solução de um dos problemas aberto na matemática, a Conjectura de Poincaré.

Pode parecer contraditório - solução de um problema aberto, mas é isso mesmo! A matemática, como qualquer ciência, possui problemas a serem resolvidos. Engraçado que antes achava que esse mistério, com relação aos conhecedores do mundo dos números, era somente por parte de leigos (ou não iniciados na arte dos números), mas conheci alguns profissionais que acham o mesmo: que na matemática está tudo muito bem acabado.

O curioso é: por que somente com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas os pensadores (aqui expando para diversas áreas) os soviéticos/russos começaram a ser reconhecidos por seus trabalhos. Pois, se os trabalhos estão sendo reconhecidos, então não começaram ontem, a não ser que os seres do além tenham enviado as soluções.

"Eu não acho que eu seja de interesse público, eu não falo isso por causa da minha privacidade, não tenho nada a esconder. Só acho que o público não deve se interessar por mim. Jornais deveriam ter mais discernimento sobre o que publicar, deveriam ter mais requinte. Até onde eu sei, não ofereço nada que acrescente à vida dos leitores. Publiquei meus achados. É isto que ofereço ao público". É com essas palavras que Grigori Yakovlevich Perelman (ou Grisha Perelman) respondeu a um jornal sobre sua contribuição ao mundo, a solução da Conjectura de Poincaré.

Perelman, à época, da publicação de seu trabalho e validação por outros especialistas abalou a comunidade científica com dois belos golpes. Não publicou seu trabalho em periódicos especializados, as chamadas revistas científicas. Simplesmente, os disponibilizou na internet -- quem mais teria essa coragem? Estes artigos podem ser consultados nos endereços: http://arxiv.org/abs/math/0211159, http://arxiv.org/abs/math/0303109 e http://arxiv.org/abs/math/0307245.

O golpe final ficou pela recusa dos prêmios que adviram com o reconhecimento do seu feito. Provavlmente, Perelman tenha ficado mais famoso pelas recusas dos prêmios oferecidos (Fields Medal), pois a área de suas pesquisas pode ser considerada do domínio de pouquíssimos (uma boa explicação pode ser encontrada em: Perelman e a conjectura de Poincaré). Afinal, em nossa época as pessoas são valorizadas pelos seus contra-cheques. Perelman sabe muito bem que valores escritos em um papel são virtuais e que o trabalho é, antes de tudo, fruto do intelecto, algo  sublime, da natureza, e não de um valor que será recebido em dia certo, portanto, reduzindo a capacidade de alguém. Infelizmente, um feito que não apareceu na "Retrospectiva 2010".
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